Cavaleiros das Trevas

quarta-feira, agosto 20

Esqueça todo o resto. Batman é o amadurecimento de uma cultura que sempre esteve em estado de transformação. É o passo definitivo para a consciência das idéias surgidas nos quadrinhos. Como dito, o filme não faz apologia a necessidade de existência de Batman, não. Ele coloca Batman como uma anomalia que não deveria existir. Mas que existe. Há uma fala no filme: “Batman não é o herói ideal. É o herói que Gotham precisa”. Ou seja, Gotham, enquanto Gotham, cidade sem lei e destruída pela corrupção, cria a condição para o surgimento de um homem que faz a lei com as próprias mãos. O título do filme é claro: cavaleiro das trevas. Das trevas. Por que todo cavaleiro (herói) é das trevas, ou seja, envolve um problema em si mesmo. Muito ao contrário de defender a condição da necessidade de um herói iluminado, o filme leva a consciência que qualquer herói é uma idéia absurda. Batman, nesse sentido, é a imagem mais madura de herói: que assume sua contradição. Não importa que o Coringa tenha tomado as atenções para si: ele existe para completar todo o absurdo real da história. Absurdo esse encarnado no homem de capa preta.

Mas, vamos ao Coringa. Ele não é a encarnação do mal. Ele é a encarnação do caos, supostamente. Sua origem não é dada porque não há origem! Não há razão que possa justificar o caos. Ou vamos preferir algo assim: “Ah, eu sou um maluco do caralho porque me jogaram num tanque de ácido!” Nada leva à loucura, porque se algo levasse necessariamente a loucura, não seria loucura, mas sim uma conseqüência natural de um processo racional.

Se há uma crítica a se fazer ao Coringa, é uma elucidação de suas motivações. Coringa confunde sua consciência de que não há regras necessárias a ser seguidas, como um impulso para violência. Por um lado, ele tem razão: não há necessidade de ser seguir regras morais. Seu objetivo é mostrar isso as pessoas. Seus métodos, contudo, não são necessários. Você pode mostrar isso com uma aula de filosofia. Não há necessidade de se explodir hospitais. Mas, o coringa pensa que há.

Com relação ao seu plano, seu objetivo não é desmascarar Batman. Ele apenas afirma isso para continuar com sua brincadeira. Com Batman desmascarado, sua brincadeira acaba. Para ele, Batman e Coringa são o exemplo vivo da total loucura (ausência de razões) que a vida nos oferece. Por isso, o palhaço considera o cavaleiro seu par. E talvez tenha razão.

A cena dos barcos é o grande momento. Não porque é mais um momento alucinado do Coringa. Mas é o momento em que toda maturidade se revela: Batman, Coringa, Duas Caras e lunáticos afins só existem porque o POVO NÃO QUIS tomar mais as decisões. Porém, a partir do momento que ele decidir por si mesmo seu próprio destino (não vamos apertar botões nenhum)! não há mais condição para que os mascarados existam.

O filme tem peso significativo porque é uma crítica ao “filme de herói” e á idéia de heroísmo usando de seus próprios termos. Você podia ouvir isso numa palestra com professor PHD. Mas, Nolan faz o mesmo no cinema, e você ainda pode levar sua namorada, refrigerante e pipoca.

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star wars: the clone wars

domingo, agosto 17

eu sinceramente não gostaria de criar um hábito de críticas negativas neste blog. na aridez cultural desta cidade, melhor largar ao esquecimento (ou ao desespero de sair do tédio) tudo que não valha o esforço de um convite. mas a publicidade é ilusão, brilhando na expectativa de uma tarde bem-aproveitada no cinema.

ignoremos a nova trilha sonora e as novas vozes, não são elas que arruinam o filme. nem por ser filler, preenchimento puro entre os episódios importantes (quadrinhos e jogos da série têm roteiros melhores). vamos direto ao que dói: a desnerdização de SW. é isso mesmo. não que ficção científica (sci-fi) tenha que ser território exclusivo. mas existe um preço caro em troca de meninas otaku, mães gamer, e crianças techies. o mundo todo se acostumou (menos com os neologismos) a robôs, aliens, psiquismo, interfaces, e todo tipo de bugiganga - culpa do vale do silício e do próprio Georfe Lucas. e aí Star Wars deixa de ser sci-fi.

o episódio dois foi ação básica de hollywood. a presença alien parecia mais cotas para hutts ("os fãs vão gostar" é o argumento). a tecnologia avançada dos episódios 4-6 (nas expectativas dos anos 70) foi substituída pela menos avançada dos prequels — com o argumento narrativo anteceder os outros episódios. só que nenhum desses argumentos te tira da cabeça coisas como "por que os droids não se comunicam direito?" ou "por que ele não tirou o inimigo do caminho com a força, ao invés de dar mil tiros?".

claro, nós sabemos o porquê. uma audiência ampla. não mais um grupinho que decorava o nome dos planetas. e clone wars, animação, não faz esforço nenhum de agradar adultos, homens ou mulheres. a personagem nova, ahsoka, é insuportável. e só pra lembrar agora, as novas vozes e novas músicas são horríveis. clone wars conseguiu as piores pontuações da crítica. e merece.

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